Só há um leão


– Não acho que seja um desgraçado – disse a grande voz

– Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?
-Só há um leão – respondeu a voz.
-Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite…
-Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.
-Como sabe disso?
Eu sou o leão
Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:
-Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa que voce dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse.
-Então foi você que machucou Aravis?
-Fui eu.
-Mas por quê?!
– Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.
-Quem é você?
-Eu mesmo – respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: -Eu mesmo – com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem á volta.
Cap 11 de O cavalo e seu menino, pg 262 (Narnia, volume único)
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