Capitães da Areia – reflexões sobre o livro

Comecei a ler este livro porque está na lista da Fuvest.
E agora o vejo como um dos melhores livros que tive o prazer de conhecer! A escrita do Jorge Amado e o desenvolvimento da história, a maneira como ele retrata o interior de cada personagem, seus questionamentos, suas dores, a voz que chama cada um, isso me cativou. No livro não há um personagem principal, mas o grupo “Capitães da Areia” protagoniza a história como uma unidade. Mesmo que cada personagem tem suas particularidades, eles se integram como membros do grupo, como irmãos.

O livro se inicia com recortes de reportagens do jornal da cidade, que apresentam o grupo como crianças ladronas, contando um caso que eles assaltaram a casa de um comendador rico, e como a população os temia. Em seguida vem cartas do juizado de menores e do chefe de polícia, um jogando a culpa para outro de quem deveria dar um jeito neles. De uma mulher denunciando maus tratos no reformatório, do padre José Pedro confirmando isso e o do diretor do reformatório se defendendo das “falsas” acusações. Começando dessa forma, o autor demonstra vários pontos de vista sobre as crianças que vão se desdobrar no decorrer da história. O descaso das autoridades com o bem estar deles, o sofrimento, as dificuldades que surgiam quando alguém queria realmente ajudá-los. O padre é um daqueles que fica mal visto diante da sociedade, por se aproximar dos meninos e realmente amar cada um, esperançoso de mudar a vida deles com a mensagem de Deus. Mesmo sendo repreendido, ele entende que tem uma missão e nunca desiste de tentar salvá-los do crime, de tentar dar dignidade. Ele era apenas um missionário pobre, mas que marcou a história dos meninos.

– Não nasci para essa vida. Nasci para o grande mundo –  Gato

A liberdade é um assunto muito discutido no livro. Abandonados, esfomeados, pobres em farrapos, com ódio e tristeza, assim eram livres. Conheciam a cidade. Eram donos dela. Para os capitães da areia, que não tinham nada, a liberdade era seu maior valor. Dentre os momentos mais tristes do livro, alguns deles estão associados a falta de liberdade.

e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.  Neste momento de música eles sentiram-se donos da cidade. 
E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música.– p. 60

“Mas dentro do seu peito vem uma marca de amor à liberdade.” – p. 230

“A canção daqueles presos dizia que a liberdade é como o sol: o bem maior do mundo.” – p. 258

O autor se preocupa em nos contar a história de cada personagem. Isso dá uma voz pra cada um, e se reflete nas suas atitudes e pensamentos. Ele entra na mente dos meninos e expõe os seus pensamentos e dúvidas, tantas perguntas sem resposta, tanta falta de cuidado. Os personagens tem diversas raízes, mas como um laço o abandono os unifica, sabemos que são violentos, sabemos que são ladrões, sabemos que estão errados no que fazem… e somos lembrados que são crianças. A vida os fez agir como homens e conhecer coisas de homens, mas no fundo são crianças.

“Não tinham também conversas de meninos, conversavam como homens. Sentiam mesmo como homens. Quando outras crianças só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que só os homens sabiam resolver. Sempre tinham sido como homens, na sua vida de miséria e de aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua. E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por si. Tinham sido sempre iguais a homens.” – p. 243

Cada vez mais o leitor se aproxima dos meninos, que apesar da realidade dura, demonstram inocência e carência. Eles conheciam o sexo, mas não o amor. Eles conheciam o prazer das mulheres, mas não o carinho de mãe. Eles eram capazes de tantas coisas, mas encontravam fascinação num simples carrossel, ou a beleza de uma manhã ensolarada, ou as histórias heroicas que um dos meninos, o Professor, contava para eles. E aí o que pega o leitor é essa ambiguidade. Crianças-bandidas, Homem-criança, Estupro-inocente,
Liberdade-criminosa, Ódio-carente.

E os dois riem, e logo a risada se transforma em gargalhada. No entanto, não têm mais que uns poucos níqueis no bolso, vão vestidos de farrapos, não sabem o que comerão. Mas estão cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vão rindo sem ter do que – p. 130

Sem contar muito mais da história, incentivo a leitura deste livro, para conhecer melhor essas pessoinhas, suas raízes e os possíveis frutos de cada um.  A voz da luta, da arte, da liberdade, do ódio, a voz de Deus… Cada um tem uma. Os destinos e desfechos, tristes ou não, que podem até fazer chorar, mas principalmente te faz pensar. Deixo então uma das frases finais do livro para concluir.

“Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Canção da beleza da Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra.”– p. 267

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