Sem-Pernas, Pedro Bala, Professor

Poderia escrever mil textos sobre esse livro!
Preciso falar ainda desses três personagens, que foram muito bem desenvolvidos.

“Pedro sente o espetáculo dos homens, acha que aquela liberdade não é suficiente para a sede de liberdade que tem dentro de si.”

Pedro Bala era filho da luta. E tinha uma marca de liberdade dentro dele. Mesmo crescendo sem pai (ele ficou sozinho no mundo com apenas 5 anos), saber que o ele havia morrido em defesa de uma causa, na luta por direitos e justiça foi um fator determinante na história desse personagem. Ele vê o pai como um herói e quer ser como ele, quer lutar, quer participar de greves, quer ajudar a melhorar a vida das pessoas. Ao meu ver ele é o mais ‘adulto’ dos meninos. Concordo que todos são crianças e tem traços de inocência dentro de si, mas ele carrega a responsabilidade de ser o líder dos Capitães da Areia. Todos os meninos o respeitam e obedecem suas ordens, mas ele também é o alvo principal de policiais que querem conter essa ‘ameaça’.
É através da história do Pedro que o assunto liberdade é abordado. Em certo momento da história ele entende que aquela liberdade da rua, de viver dos furtos, de ser solto no mundo não é o suficiente para ele. Ele quer mais, quer levar além o conceito de luta e liberdade que ele adquiriu por suas raízes e aspirações para o futuro. Sim, ele espera um futuro diferente do que viveu até hoje!
Dentro de Pedro estava a voz da liberdade.

“Sem-Pernas disse: 
– A bondade não basta. 
Completou: 
– Só o ódio… 
[…] Os dois Capitães da Areia saíram balançando a cabeça. Pedro Bala botou a mão no ombro do Sem-Pernas. 
– Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta.”
 – p. 235

Professor era um dos meninos que sabia ler. E que diferença isso fez. Ele conseguia alguns livros nos furtos, amava ler e contava as histórias para as outras crianças. O contato com a leitura fazia dele um menino muito inteligente, que sabia muitas coisas, e isso fez dele um dos principais parceiros de Pedro Bala na hora de montar estratégias.
Dos bons momentos que eles viveram, alguns eram quando eles se juntavam para ouvir as histórias heroicas. Dora, João Grande, Volta Seca, entre outros, que se encantavam e se inspiravam com essas histórias.
Além disso, ele tinha talento pra desenhar, ele retratou cenas do cotidiano deles, e alguns pediam pra que ele fizesse um retrato deles. Ele também era respeitado.
Professor amou, ele conheceu o amor. E isso desencadeou a grande mudança da vida dele, que fez expressar nos desenhos o marca do ódio e da liberdade que tinha dentro dele.
Acredito que a voz da arte estava dentro dele.

“Professor também não entendeu. Tampouco Pedro Bala sabia explicar. Mas tinha confiança no Professor, nos quadros que ele faria na marca do ódio que ele levava no coração, na marca de amor à justiça e à liberdade que ele levava dentro de si. Não se vive inutilmente uma infância entre os Capitães da Areia. Mesmo quando depois se vai se um artista e não um ladrão, assassino ou malandro.” – p. 229

Enfim, temos o Sem-Pernas. Sua história foi muito marcante pra mim.
Por causa do ‘defeito’ físico ele sempre foi desprezado, não tinha sorte com as mulheres como os outros. Uma vez ele foi pego pela polícia, e eles fizeram ele correr em volta de uma mesa até não aguentar mais ficar de pé, enquanto batiam nele, e zombavam. Essa imagem, esse momento nunca mais saiu de dentro dele. Esse evento moldou sua vida, fez o ódio criar raízes profundas, o que explica muito do seus pensamentos e atitudes. Ele não amava ninguém, ele não conhecia amor, carinho, cuidado. Ele apenas respeitava Pedro Bala como o líder, mas odiava a tudo e a todos.
Mas há um momento do livro que ele tem uma oportunidade. De mudar de vida, de ter família, de conhecer o amor, carinho, cuidado que ele nunca teve. Ele tem um pouquinho daquilo que fez tanta falta, que poderia mudar o seu destino! Mas ele não é capaz de aceitar! Por que não Sem-Pernas? Porque se acha indigno, ladrão, e só o ódio importa. Ele se vê incapaz de amar, de ser feliz, tamanho é o buraco dentro dele. Seu coração de criança é manchado e inutilizado pela dor… E depois disso ele fica ainda pior. Toda vez que ele entra em contato com algo diferente, só isso que resta.
Isso é terrivelmente triste. Porque quando as crianças tiveram oportunidades, eles tentaram mudar suas vidas, mas com ele foi diferente. Porque fica claro que debaixo de tudo aquilo tem uma criança abandonada, tem traços de sensibilidade, de carência.
Sem-Pernas girou o carrossel, beijou o rosto de uma mãe, mas dentro dele estava a voz do ódio.

Nas noites da Bahia, numa praça de Itapagipe, as luzes do carrossel girariam loucamente movimentadas pelo Sem-Pernas. Era como num sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas que não eram causadas pela dor ou pela raiva.” – p. 58
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2 comentários sobre “Sem-Pernas, Pedro Bala, Professor

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