Personagens com destino ao sofrimento

SPOILER ALERT 
(não diga depois que eu não avisei)

Fiz teatro por 5 anos, e por isso aprendi muito sobre como construir um personagem, quanto mais características e peculiaridades tiver, mais real ele vai parecer para o público.
Ultimamente comecei a pensar sobre construção de personagens na literatura. Todo livro que eu leio fico pensando se os personagens foram bem construídos ou não.
Na minha concepção, um personagem bem construído é profundo, é aquele cujas atitudes e formas de pensar tem certa coerência com fatos da sua história de vida, lugar onde cresceu, infância, criação, etc. É interessante para o leitor, por exemplo, saber o que levou fulano a matar pessoas, porque fulana não quer casar, os motivos por trás do comportamento. Nas novelas principalmente alguns personagens não tem história, ele mata porque… ninguém sabe. Personagens mal construídos são rasos.

Hopeless by Aurélie Marinoni

Sem estender essa discussão vamos direto ao assunto do post: notei o quanto alguns personagens foram “destinados” a um final nada feliz. Acredito que eles foram pensados para sofrer, para tragédia. Quero diferenciar de simplesmente personagens com final bom ou ruim, mas esses tem uma ligação com o sofrimento no decorrer da história. O Sem-Pernas (do livro capitães da areia, falei sobre ele nesse post) é um exemplo disso. Durante toda a sua curta vida o sofrimento foi um traço presente, e ainda que surgiram oportunidades de mudar, de transformar sua história, ele sempre se agarrou a dor, até ser finalmente tragado, consequência de uma série de infortúnios.
Da mesma forma posso citar a Bertoleza (O cortiço) que, diferente do Sem-pernas, lutou e batalhou muito para tentar melhorar sua vida. Ela não descansava, apenas entregava tudo de si pra sair da pobreza de uma forma honesta. Mas ela se associou com a pessoa errada. Sua vida foi um ciclo: fundo do poço, ascensão e queda livre para o fundo novamente, dessa vez, sem volta. A luta havia sido em vão.
Fabiano de Vidas Secas, era um bruto, ele se enxergava como um bruto. Ele achava que ele não tinha conserto, solução. Ele não tinha nenhuma perspectiva de melhora. E quem pode criticá-lo? Sua história o levou a ser assim. Pra quem leu o livro vai ficar claro o andar em círculos de Fabiano.
Antes de citar o último personagem, quero acrescentar que esses livros tem em comum elementos do realismo, naturalismo e modernismo, por causa disso acredito que todos os autores, ao escrever esses personagem estavam buscando representar uma classe ou uma parte da sociedade brasileira, e por esse motivo a ligação com o sofrimento na vida deles pode ser uma denúncia da realidade do país naquela época. Esse foi exatamente o caso de Dona Plácida, personagem de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ele dedicou um capítulo do livro (LXXV) para esclarecer que seu nascimento não fora planejado, mas seu destino estava traçado.

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